Anatomia de um erro: o Oscar 2017 como microcosmo de Gestão de Projetos

Não houve destruição, danos materiais, feridos nem morte. Mas, em termos de imagem, reputação profissional e abalo emocional, o fiasco no anúncio do Melhor Filme no Oscar de 2017 foi uma verdadeira catástrofe. E, como toda catástrofe, não foi causada por um só erro, mas uma sucessão deles. O que resta é entender o que aconteceu e tirar lições importantes, para que não sejam repetidas. Mesmo quem nunca vai ter ocupação ou projeto relacionado com anúncio de vencedores tem o que refletir.

O cenário

Considerada a maior premiação mundial do cinema, a cerimônia de entrega do Oscar é um evento formador de opinião em diversas áreas e que já chegou a 55 milhões de espectadores nos EUA, atraindo outras centenas de milhões ao redor do mundo todo ano. Além de promover um aumento considerável das bilheterias dos vencedores, pode também nortear a empregabilidade de vários envolvidos na indústria cinematográfica, ditar moda e engajar discussões políticas. Os premiados são guardados com extremo sigilo nem tanto pela graça da surpresa do anúncio ao vivo, mas porque também movimentam o milionário mercado das casas de apostas tradicionais e de sites globais.

Como funciona

Os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (atualmente 6.687 profissionais do cinema entre atores, diretores, produtores, roteiristas, figurinistas, compositores, etc, que incluem brasileiros como Fernando Meirelles, Walter Salles e Fernanda Montenegro) votam para escolher os indicados em 24 categorias, dentre os filmes lançados no ano anterior que atendem às regras de elegibilidade da Academia. Após a divulgação dos concorrentes de cada categoria, inicia-se a votação que define o vencedor em cada uma delas. A festa de premiação é normalmente marcada para cerca de um mês após e os membros têm prazos determinados para submeter por correio os seus votos. A empresa de auditoria e consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC) é a responsável pela contabilização sigilosa dos votos – somente dois de seus membros se envolvem no processo e ficam sabendo o resultado, sob forte acordo de confidencialidade. Estes dois membros da PwC montam os envelopes com os cartões que apontam o vencedor de cada categoria. No cartão há o nome do vencedor e logo abaixo o filme pelo qual ganhou o prêmio. No rodapé, em letras pequenas, está escrito a categoria. No caso de Melhor Filme, a única diferença é que primeiro vem o nome do filme e logo abaixo o nome dos produtores do mesmo. São gerados dois envelopes para cada prêmio, sendo que cada um dos dois consultores fica com uma cópia durante a cerimônia. Nos bastidores da premiação, um consultor se posiciona à direita do palco e outro à esquerda, para atender aos apresentadores. Quando um consultor entrega o envelope que vai ser aberto, o outro elimina a sua própria cópia. Além disto, ambos memorizam todos vencedores para atuar com rapidez caso algum imprevisto aconteça.

Principais envolvidos na gafe do Oscar 2017

  • Warren Beatty e Faye Dunaway – atores veteranos, do clássico Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas, que foram escolhidos para apresentar e entregar o último e mais importante prêmio da noite: Melhor Filme.
  • Brian Cullinan e Martha Ruiz – experientes consultores da PwC, designados para este Oscar
  • Produtores de La La Land: Cantando Estações – considerados os favoritos para vencer Melhor Filme
  • Produtores de Moonlight: Sob a Luz do Luar – considerados como a maior ameaça a La La Land
  • Emma Stone – atriz de La La Land que veio a vencer Melhor Atriz, o antepenúltimo prêmio da noite

O que todo mundo viu

Quando chegou o grande momento, Warren Beatty abriu o envelope de Melhor Filme e, sorrindo, hesitou durante alguns segundos. A plateia riu, achando que ele estava querendo aumentar o suspense. Ele acabou mostrando o cartão para Faye Dunaway que anunciou La La Land como Melhor Filme. Os produtores subiram no palco, levando consigo a equipe e elenco, e começaram seus agradecimentos, já com as estatuetas em mãos. Aos poucos se formou um vai-e-vém atrás dos discursantes e, longos minutos depois, um produtor de La La Land acabou informando que havia um erro e mostrou o cartão do verdadeiro vencedor: Moonlight. Todo um constrangimento se estabeleceu e Warren Beatty foi ao microfone escalrecer que no envelope dele estava escrito “Emma Stone – La La Land”, por isso havia hesitado. Finalmente, os produtores de Moonlight apareceram para -sem graça- receber o prêmio e agradecer.

Foto: Produtor de La La Land mostra o cartão de Melhor Filme

A sequência de erros

  1. O consultor Brian Cullinan não eliminou seu envelope de Melhor Atriz depois que Martha Ruiz entregou o seu para o apresentador que anunciou Emma Stone como vencedora. Há relatos de que Brian ‘twittou’ ferozmente durante a noite, inclusive colocando uma foto da Emma Stone nos bastidores com a estatueta na mão;
  2. Warren Beatty, sob pressão, imaginou que podia ter algo errado – afinal, Emma Stone não era produtora de La La Land, mas não agiu. Aliás, agiu errado: a) falhou em perceber que embaixo, em letras pequenas, estava escrito Melhor Atriz; b) não buscou assistência com um dos dois consultores da PwC; c) mostrou o cartão para Faye Dunaway achando que ela não ia simplesmente ler o nome do filme, mas que iria tentar ajudá-lo a decifrar o que estava acontecendo;
  3. Faye Dunaway simplesmente leu o nome do filme, ignorando os demais dizeres;
  4. Os produtores de La La Land, no calor do momento, dá para entender, sequer olharam para o cartão escrito Emma Stone;
  5. Martha Ruiz e Brian Cullinan demoraram, muito, para reagir e corrigir.

Foto: Warren Beatty segurando o envelope errado

Lições Aprendidas

Atenção aos procedimentos:

Brian Cullinan cometeu a falha inicial e principal da catástrofe. Não seguiu os procedimentos, deixou de executar uma ação simples. Muito comum em, mas não exclusivo de, profissionais experientes como ele, a tendência de subestimar tarefas fáceis e corriqueiras pode ser o pilar de um erro fatal. E, novamente Brian, junto com Martha Ruiz, não soube aplicar o procedimento que demandava uma reação rápida e precisa em caso de engano no anúncio do vencedor.

Comunicação correta:

Alicerce do sucesso ou fracasso de qualquer projeto, empreendimento ou relacionamento, a comunicação (ou a falta dela) foi primordial para agravar a falha. Começando por Brian Cullinan, que utilizava a ferramenta de comunicação errada (Twitter), no momento errado, para as pessoas erradas. Warren Beatty não soube aproveitar a totalidade da informação escrita que lhe foi entregue, não se permitiu comunicar com as pessoas que poderiam precisamente esclarecer sua dúvida e apenas deixou subentendida sua intenção ao mostrar o cartão a Faye Dunaway. Ela, por sua vez, cometeu a mesma primeira falha de Warren e ainda deu o golpe final fazendo o anúncio publicamente.

Desta vez tudo isto pode ser visto só como uma gafe que mexeu com os ânimos de alguns milionários de Hollywood, causou o afastamento de dois consultores da PricewaterhouseCoopers, rendeu centenas de memes internet afora e marcou negativamente a história do Oscar para sempre. Mas, desatenção e falha de comunicação podem ser o que separa a normalidade de uma verdadeira tragédia.

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Sobre o Colunista:

José Roberto Costa Ferreira, PMP, é Engenheiro Eletrônico e de Telecomunicações pela PUC-MG, pós-graduado em Redes de Telecomunicações pela UFMG e em Gerenciamento de Projetos pelo IETEC. Iniciou sua carreira profissional em 1995 no ramo de eletrônica, informática e telecomunicações e desde 2005 atua em áreas e negócios diversificados com Gestão de Produtos e Gerenciamento de Projetos. Atualmente integra a equipe de Gestão de Projetos da ThyssenKrupp Industrial Solutions, divisão de Tecnologia de Recursos/ Mineração. Nas horas vagas é um aficionado por cinema. E-mail para contato: zrcosta@hotmail.com – Blog pessoal: http://padecin.blogspot.com.br

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