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IMPACTO DAS CHUVAS NO CUSTO: Custos adicionais a obra gerados pela improdutividade causada pelas chuvas

Publicado em 22/05/2026

Resumo

Devido ao avanço tecnológico, o acesso a informação se tornou cada vez mais facilitado a todas as pessoas. Assim a análise de dados para prevenção de possíveis riscos em uma obra de construção civil se torna cada vez mais necessário, já que o mercado atual busca cada vez mais otimizações nos custos das obras, mas sem o aumento de riscos associados. Os impactos causados pelas chuvas nas obras afetam diretamente a produtividade de cada serviço a ser executado, o que interfere também no custo e prazo previsto para a obra durante a fase de orçamento. Portanto, durante a fase de estudo da obra, a realização de um estudo pluviométrico da região do empreendimento, entendendo como a chuva se comporta em cada época do ano se apresenta como meio essencial para a mitigação de riscos e sobrecustos a obra. A partir dessa análise de dados são gerados os índices de improdutividade associados a cada tipo de serviço e por fim determinar o custo e prazo real de cada serviço a ser realizado no escopo da obra. O tratamento e análise destes dados pluviométricos, bem como a aplicação a afetação em custos deste estudo será apresentado ao decorrer do presente documento.

Palavras-chave: Custo; Pluviometria; Improdutividade; Praticabilidade; Produtividade; Dados.

INTRODUÇÃO

O cenário atual da construção civil é marcado por elevada competitividade, margens reduzidas e crescente exigência por eficiência operacional. Nesse contexto, torna-se indispensável a adoção de estratégias voltadas à otimização de processos, com o objetivo de reduzir custos sem comprometer a qualidade do produto final. Segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (2025), lideranças do setor têm concentrado esforços na implementação de práticas que minimizem desperdícios e aumentem a eficiência produtiva, promovendo ganhos financeiros consistentes e sustentáveis ao longo do tempo.

Corroborando essa perspectiva, a VIDENCI (2025) destaca que a otimização dos processos construtivos está diretamente relacionada à melhoria da agilidade operacional e ao aumento da satisfação de clientes, colaboradores e fornecedores. Dessa forma, evidencia-se a importância de um estudo aprofundado ainda na fase de orçamento e planejamento, etapa estratégica na qual são definidas premissas técnicas, produtividades e custos que nortearão toda a execução do empreendimento.

Dentro desse cenário, a análise criteriosa das variáveis que impactam o desempenho da obra torna-se fundamental para a tomada de decisão antes mesmo do início dos serviços. Entre esses fatores, destaca-se o impacto das chuvas, especialmente em obras que envolvem atividades externas e serviços sensíveis às condições climáticas. A não consideração adequada desse aspecto pode resultar em atrasos, redução de produtividade e aumento significativo dos custos.

O estudo do comportamento pluviométrico de uma determinada região permite a obtenção dos chamados índices de praticabilidade, definidos pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (2021) como a relação entre as horas efetivamente produtivas e as horas totais disponíveis, após as deduções decorrentes de fatores limitantes, como as intempéries. A análise desses índices, especialmente nos períodos mais chuvosos, possibilita estimar a improdutividade incidente sobre cada serviço.

A aplicação correta dessa improdutividade às composições orçamentárias e ao cronograma físico-financeiro conduz à definição de prazos e custos mais aderentes à realidade de execução. Assim, o planejamento deixa de se basear em parâmetros ideais e passa a refletir condições efetivas de campo, reduzindo riscos, aumentando a previsibilidade financeira e contribuindo para uma gestão mais eficiente do empreendimento.

Objetivos

O presente trabalho tem como objetivo geral analisar o impacto das improdutividades decorrentes das chuvas no custo de execução das obras, demonstrando de que forma os índices pluviométricos podem ser utilizados como fator de ajuste no planejamento e no orçamento.

O estudo pretende evidenciar a relação entre as condições climáticas e a redução da produtividade das equipes, mostrando como a análise de dados históricos de precipitação, obtidos no site da Agência Nacional de Águas (ANA), pode ser aplicada para estimar o percentual de improdutividade mensal de uma região. A partir desses dados, busca-se calcular o fator de praticabilidade, isto é, o número de dias efetivamente produtivos, e aplicá-lo ao cronograma e à composição de custos, ajustando o planejamento às condições reais de execução.

Embora existam diversas causas de improdutividade em obras, como falhas humanas, restrições logísticas e pausas operacionais, o foco deste trabalho será voltado exclusivamente para as improdutividades resultantes das chuvas, por se tratar de variáveis mensuráveis e de grande impacto no planejamento físico-financeiro das obras.

O objetivo final é demonstrar como a análise de dados climáticos pode contribuir para a tomada de decisão, a redução de incertezas e a previsibilidade financeira dos empreendimentos.

Justificativa

A indústria da construção civil tem papel fundamental no desenvolvimento econômico do país, representando uma das principais atividades em geração de empregos e impacto no Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Apesar da constante evolução tecnológica e da profissionalização dos processos construtivos, o setor ainda enfrenta desafios significativos relacionados às improdutividades, fatores que reduzem a eficiência da execução e aumentam os custos e prazos das obras.

Essas improdutividades podem ter origens diversas. Algumas são controláveis, resultantes de falhas humanas ou gerenciais, como erros de planejamento, baixa qualificação da mão de obra, deficiência logística e atrasos na disponibilização de recursos, entre outros. Outras, porém, são inevitáveis, como aquelas decorrentes de condições climáticas, exigências legais e operacionais, ou da própria dinâmica do canteiro de obras, a exemplo das pausas obrigatórias para segurança, deslocamentos internos e paralisações por intempéries.

Assim, este trabalho se justifica pela necessidade de quantificar e compreender o impacto das chuvas sobre a produtividade e o custo das obras, integrando conceitos de Engenharia de Custos e Análise de Dados para o desenvolvimento do estudo. Dessa forma, busca-se contribuir para o aprimoramento das práticas de planejamento e orçamentação, fornecendo ferramentas técnicas e analíticas para a gestão eficiente das improdutividades climáticas.

DESENVOLVIMENTO

Foi elaborado um mapa mental com a finalidade de estruturar e organizar as diretrizes deste estudo. Esse instrumento foi desenvolvido para orientar o desenvolvimento das etapas do trabalho, servindo como referência metodológica para a condução das análises e atividades necessárias ao alcance do objetivo proposto ao final da pesquisa. Segue abaixo o mapa mental mencionado:

 

Figura 1 – Mapa mental das etapas do estudo

Fonte: Elaborado pelos autores.

 

O mercado atual se apresenta como altamente competitivo, tornando indispensável a reestruturação constante das empresas para que se mantenham sustentáveis. Estruturas inchadas, margens elevadas e baixa eficiência operacional não são mais compatíveis com a realidade do setor. Nesse contexto, torna-se imprescindível o investimento em estratégias objetivas e soluções técnicas voltadas à otimização dos processos construtivos. Conforme PASQUINI (2017), a qualidade não deve ser entendida apenas como conformidade técnica do produto final, mas como um sistema de gestão que envolve padronização de processos, controle rigoroso de custos, redução de desperdícios e melhoria contínua. Para o autor, a competitividade está diretamente relacionada à capacidade da empresa de entregar valor com eficiência, o que exige planejamento detalhado e domínio sobre as variáveis que impactam o desempenho produtivo.
Complementarmente, Resende (2013) ressalta que o aumento da concorrência impõe maior rigor no cumprimento dos prazos contratuais, muitas vezes acompanhado de redução das margens de lucro. Nesse cenário, atrasos e desvios orçamentários deixam de ser absorvidos com facilidade e passam a comprometer diretamente a rentabilidade do empreendimento. O autor destaca que a previsibilidade e o controle passam a ser diferenciais estratégicos, uma vez que contratos cada vez mais competitivos reduzem a possibilidade de reajustes e aditivos. Assim, a fase de orçamento assume papel central na sustentabilidade financeira da obra, exigindo análises técnicas que antecipem riscos e incorporem fatores de improdutividade ao planejamento. Em outras palavras, em um ambiente de margens comprimidas, a gestão eficiente dos custos deixa de ser uma vantagem competitiva e passa a ser uma condição de sobrevivência no mercado.
Essa combinação de alta competitividade, margens reduzidas e pressão por prazos, reforça a necessidade de precisão na fase de orçamento e planejamento. Todas essas variáveis impactam diretamente o custo total do empreendimento, pois interferem no ritmo produtivo, prolongam prazos e elevam encargos indiretos. Dentre os diversos fatores que influenciam a produtividade em obras, este estudo concentra-se nas improdutividades decorrentes das chuvas, por sua relevância, recorrência e mensurabilidade no contexto da construção civil brasileira.
Quando não consideradas adequadamente no planejamento, as chuvas podem comprometer o cronograma físico-financeiro, provocar paralisações totais ou parciais das frentes de serviço e gerar aumentos expressivos nos custos diretos e indiretos. Serviços de terraplenagem, fundações, concretagem, pavimentação e atividades externas são particularmente sensíveis às condições climáticas adversas. Além da interrupção direta da execução, as chuvas impactam o rendimento das equipes, aumentam o consumo de insumos, exigem retrabalhos e ampliam o desgaste de equipamentos.
Esses efeitos refletem-se de maneira imediata na composição dos custos da obra. A redução da produtividade eleva o custo unitário dos serviços, uma vez que a mesma estrutura de mão de obra e equipamentos permanece mobilizada por um período maior para produzir uma quantidade menor. Paralelamente, o prolongamento do prazo implica aumento dos custos indiretos, como administração local, manutenção do canteiro, vigilância, consumo de energia, encargos trabalhistas e despesas financeiras. Em contratos com cronogramas rígidos, as paralisações podem ainda resultar em multas, reprogramações e necessidade de aceleração posterior dos serviços, o que eleva ainda mais os dispêndios. Dessa forma, a chuva deixa de ser apenas um fator operacional e passa a representar uma variável econômica relevante, capaz de impactar diretamente a rentabilidade e o equilíbrio financeiro do empreendimento.
Dessa forma, a análise de dados pluviométricos torna-se uma ferramenta essencial para o planejamento realista da obra. No Brasil, tais informações podem ser obtidas junto à Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), que disponibiliza séries históricas de precipitação por estação meteorológica. A partir desses dados, é possível identificar padrões sazonais, meses críticos e médias históricas de dias com precipitação significativa.
Assim, para que a problemática apresentada, seja resolvida, é necessário a realização de um estudo de praticabilidade da região, para que possa ser entendido a pluviometria da área onde será executado o escopo da obra. Segundo SOUZA (2006), o fator de produtividade de um se dá pela divisão das horas trabalháveis pelas horas disponíveis em um serviço. Sendo assim, o primeiro ponto a ser levantado para este estudo seria as horas disponíveis em cada mês.
As horas disponíveis no mês se darão pela multiplicação das horas da jornada de cada dia pelos dias úteis de cada mês. Para este estudo, está sendo considerada uma jornada semanal de 44 horas de segunda a sexta, sem a realização de horas extras, ou seja, 8,8 horas por dia. Os dias úteis serão dados pela quantidade de dias disponíveis no mês descontando os sábados, domingos e feriados em dias úteis. Sendo assim, teremos a quantidade de horas disponíveis conforme a tabela abaixo.

 

Tabela 1 – Horas disponíveis por mês

Fonte: Elaborado pelos autores.

 

Com a definição das horas disponíveis, torna-se necessário realizar o estudo das horas trabalháveis. Para a elaboração dessa análise, é fundamental considerar fatores que podem interferir na execução das atividades, dentre os quais se destaca a ocorrência de precipitações. Dessa forma, torna-se necessária a análise de dados pluviométricos, que podem ser obtidos em bases disponibilizadas por órgãos como a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), entre outras instituições que disponibilizam séries históricas de dados meteorológicos e hidrológicos.
Os dados pluviométricos utilizados neste estudo foram obtidos no sistema Hidroweb da ANA, referentes à estação pluviométrica CAIXA DE AREIA (1943022), considerando a série histórica no período de 2016 – 2025, na cidade de Belo Horizonte/MG. Com posse destes dados é possível realizar sua consolidação e o cálculo da precipitação total mensal. Essa precipitação pode ser observada na Tabela 2, apresentada abaixo.

 

Tabela 2 – Pluviometria da região de Belo Horizonte/MGFonte: Elaborado pelos autores

De posse dos dados de precipitação diária, torna-se necessária a definição de um critério de corte que permita identificar os dias impraticáveis em função das chuvas, possibilitando o desconto dessas ocorrências das horas potencialmente trabalháveis. Segundo Mattos (2016), para atividades com elevada sensibilidade às condições climáticas, como os serviços de terraplenagem, recomenda-se a adoção de faixas de precipitação como parâmetro de análise, de forma a avaliar o impacto das chuvas sobre a produtividade das frentes de trabalho.

Com base nessa abordagem, adotou-se, para este estudo, que dias com precipitação inferior a 5 mm não apresentam impacto significativo nas condições operacionais, não sendo, portanto, descontados das horas produtivas. Quando o volume diário de precipitação se situa entre 5 mm e 10 mm, o dia passa a ser considerado impraticável, uma vez que o aumento da umidade do solo e as condições do terreno tendem a comprometer o desempenho das atividades.
Já para precipitações superiores a 10 mm, além do próprio dia ser classificado como não produtivo, considera-se também a penalização do dia subsequente, visto que chuvas mais intensas geralmente deterioram as condições do terreno e dificultam a retomada imediata das operações. Nessas situações, é comum a necessidade de execução de retrabalhos, como a secagem e o recondicionamento do material, até que sejam restabelecidas as condições adequadas de trabalhabilidade para a continuidade das atividades.
Dessa forma, os dados pluviométricos analisados neste estudo passam a constituir informações objetivas que permitem estimar os riscos associados à ocorrência de chuvas na região, contribuindo para maior assertividade na definição das perdas horárias consideradas no planejamento e no orçamento da obra.
A partir da aplicação desse critério, torna-se possível estimar a quantidade de horas efetivamente perdidas em função das chuvas ao longo de cada mês. Assim, a Tabela 3 apresenta a quantidade de horas efetivamente trabalhadas no período analisado.

 

Tabela 3 – Horas trabalháveisFonte: Elaborado pelos autores

A partir das informações apresentadas sobre a pluviometria da região, temos as informações necessárias para o cálculo do índice de produtividade. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (2021) apresenta este índice como a relação entre as horas disponíveis para trabalho em determinado período e as horas trabalháveis após as deduções decorrentes de intempéries.

Seguindo o exemplo apresentado neste estudo, para obras que possuem grande afetação pela chuva, a Tabela 4 apresenta o resumo dos índices de produtividade mensais, já considerando o desconto dos dias improdutivos decorrentes das precipitações.

Tabela 4 – Índices de produtividade mensaisFonte: Elaborado pelos autores

Após a aplicação dos procedimentos descritos e da consolidação dos dados, obtém-se o índice final de praticabilidade, a partir do qual é possível determinar o percentual de improdutividade associado a cada tipo de serviço analisado. Esse resultado representa a síntese do tratamento estatístico dos dados pluviométricos e da aplicação dos critérios técnicos de classificação dos dias impraticáveis.
Com isso, a produtividade teórica prevista nas composições orçamentárias deixa de representar um cenário idealizado e passa a refletir uma condição média histórica de execução. Como consequência direta, os custos unitários são ajustados proporcionalmente à redução do rendimento das equipes, uma vez que a mesma estrutura de mão de obra e equipamentos permanece mobilizada por período superior ao inicialmente previsto para produzir a mesma quantidade de serviço.
Porém, existem situações em que uma composição de preço contempla a execução de diversos serviços distribuídos em diferentes períodos do cronograma ou até mesmo a execução de um mesmo serviço em uma única área ao longo de um período prolongado. Nesses casos, torna-se necessária a aplicação de um fator geral de praticabilidade, capaz de representar de forma mais abrangente as condições operacionais ao longo de todo o período de execução das atividades.
De acordo com Gallego e De Marco (2021), o período chuvoso impacta significativamente a execução de serviços de terraplenagem, uma vez que a saturação do solo compromete as condições de escavação, espalhamento e compactação, além de dificultar a mobilidade dos equipamentos sobre o terreno encharcado. Diante desse cenário, recomenda-se, sempre que possível, priorizar a execução dessas atividades fora do período chuvoso, de modo a reduzir perdas de produtividade e retrabalhos.
Seguindo a abordagem adotada neste estudo, o período chuvoso pode ser considerado entre os meses de novembro e fevereiro, por serem os meses que apresentam os maiores índices pluviométricos. Consequentemente, o período de estiagem, compreendido entre março e outubro, foi adotado como a janela preferencial para execução dos serviços, sendo este intervalo utilizado como base para o cálculo do índice geral de praticabilidade.
Este cálculo se dará da mesma forma realizada anteriormente, porém, será considerada as horas totais disponíveis e trabalháveis deste período de execução, resultando na tabela 5.

 

Tabela 5 – Índice de produtividade geralFonte: Elaborado pelos autores

 

Barreto et al. (2023) ainda apontam que a não consideração desse ajuste pode resultar na subestimação do prazo contratual e, consequentemente, na distorção dos custos indiretos, como administração local, manutenção do canteiro, mobilização de equipamentos e encargos financeiros. Observa-se, portanto, que quanto menor o fator de praticabilidade, especialmente em meses com maior índice pluviométrico, maior tende a ser o custo unitário real do serviço. Além disso, a redução da produtividade implica extensão do prazo de execução, ampliando os custos indiretos e impactando diretamente o equilíbrio econômico-financeiro do empreendimento.
Dessa forma, a metodologia proposta permite converter a variabilidade climática, tradicionalmente tratada como fator imprevisível, em parâmetro estatístico mensurável, reforçando a importância da integração da análise pluviométrica ao processo de planejamento e orçamentação como instrumento de mitigação de riscos e aumento da precisão nas estimativas de custo.

Sob a ótica do planejamento físico-financeiro, a não consideração desses fatores pode gerar distorções significativas no fluxo de caixa da obra, comprometendo a margem prevista e aumentando o risco contratual. Já a incorporação técnica dos dados climáticos no orçamento permite estimativas mais aderentes à realidade, redução de incertezas e maior previsibilidade financeira.
Assim, ao integrar dados históricos de precipitação às composições de custo e ao cronograma executivo, o orçamento deixa de ser uma estimativa puramente teórica e passa a refletir as condições efetivas de execução. Essa abordagem fortalece a tomada de decisão estratégica ainda na fase pré-contratual, permitindo avaliar riscos, ajustar prazos e negociar condições contratuais mais coerentes com a realidade climática da região analisada.
Em um setor marcado por margens reduzidas e alta competitividade, ignorar os impactos das chuvas no custo da obra não é apenas uma falha técnica é um risco financeiro direto. A Engenharia de Orçamentos, quando fundamentada em dados e indicadores mensuráveis, transforma variáveis climáticas de incerteza em parâmetros controláveis, contribuindo para maior eficiência, previsibilidade e sustentabilidade dos empreendimentos.
Além do impacto direto sobre os custos unitários, a redução da produtividade também tende a provocar a extensão do prazo contratual. Conforme destaca Mattos (2010), o prolongamento do cronograma repercute no aumento dos custos indiretos da obra, uma vez que despesas relacionadas à administração local, manutenção e operação do canteiro, segurança, consumo de energia, encargos financeiros e estrutura administrativa permanecem ativas por período superior ao inicialmente previsto.
Dessa forma, mesmo que os custos diretos sofram acréscimo em função da menor produtividade, é o alongamento do prazo que potencializa os impactos financeiros, comprometendo o equilíbrio econômico do empreendimento e reduzindo as margens previamente estimadas no orçamento.
Assim, o impacto das chuvas não se limita ao custo direto da produção, mas gera efeito cascata sobre todo o orçamento da obra. Em contratos com margens reduzidas, como destacado por Resende (2013), esse acréscimo pode comprometer significativamente a lucratividade prevista.

Portanto, a incorporação sistemática do fator climático ao orçamento, por meio da aplicação do índice de praticabilidade às composições de custo e ao cronograma físico-financeiro, transforma uma variável incerta em um parâmetro técnico quantificável. Essa metodologia permite maior previsibilidade financeira, melhor gestão de riscos e tomada de decisão mais segura ainda na fase pré-contratual.
Em síntese, a análise demonstra que a chuva não é apenas um evento climático, é uma variável econômica que, quando negligenciada, impacta diretamente a rentabilidade do empreendimento. E na Engenharia de Orçamentos, previsibilidade é lucro preservado.

 

APLICAÇÃO

Para quantificar o impacto das chuvas em um orçamento de maneira objetiva, este tópico apresenta uma análise baseada em séries históricas de dados pluviométricos, devidamente tratadas e organizadas. A partir desse tratamento, foi possível calcular um percentual médio de improdutividade atribuível às chuvas, aqui denominado Praticabilidade Geral (PRG). Com o método proposto, a depender do tipo de serviço e o quão é sucessível às chuvas, é possível consolidar a improdutividade final de cada tipo de serviço e para cada época do ano que serão executados.

Vale ressaltar que o presente artigo objetivou apresentar o método de captação de dados pluviométricos e o tratamento destes dados, bem como apresentar os cálculos necessários para gerar a improdutividade devido ao impacto das chuvas. Dessa forma, por não ser o foco principal deste estudo, não serão explicados outros fatores improdutivos que possam incidir nas horas de fato trabalháveis, como por exemplo, os diálogos diários de segurança (DDS), deslocamentos entre os canteiros de obras, frentes de serviços e refeitório, palestras, treinamentos etc.

Para aplicação dos resultados obtidos, criou-se uma CPU de escavação de material de 1ª categoria. Essa CPU dispõe de todas as variáveis e custos que uma composição padrão deve conter, inclusive a variável de improdutividade, que atua sobre todo o dimensionamento da CPU. Essa variável é dada por: 1−𝑃𝑅𝐺%, onde o PRG é o percentual de praticabilidade, isto é, o quanto aquele serviço e praticável. Logo, subtraindo 1 deste percentual, encontramos a improdutividade, que é o inverso da praticabilidade, como explicado no exemplo abaixo:

𝑃𝑟𝑎𝑡𝑖𝑐𝑎𝑏𝑖𝑙𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒 (𝑃𝑅𝐺)=87,30%

𝐼𝑚𝑝𝑟𝑜𝑑𝑢𝑡𝑖𝑣𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒 = 1−87,30%

𝐼𝑚𝑝𝑟𝑜𝑑𝑢𝑡𝑖𝑣𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒 = 12,70%

O percentual de 12,70% de improdutividade identificado atua diretamente na composição de custos, majorando os recursos necessários para execução da atividade. Em termos práticos, isso significa que será necessário prever aproximadamente 12,70% a mais de recursos, como mão de obra, equipamentos e tempo de utilização, para executar a mesma quantidade de serviço originalmente prevista em condições ideais.

Compreendido o funcionamento do PRG e da improdutividade dentro da composição de custos, apresenta-se a seguir sua aplicação prática. O índice de praticabilidade foi aplicado a uma composição de custo representativa das atividades executadas em um empreendimento, de modo a demonstrar, de forma objetiva, o impacto das chuvas sobre os custos diretos da obra. Essa abordagem evidencia como a variabilidade climática, muitas vezes negligenciada nas etapas iniciais de planejamento, pode alterar significativamente o custo final do empreendimento, reforçando a importância de uma análise criteriosa dos dados climáticos da região.

•CPU Escavação de 1ª categoria – Sem incidência de improdutividade em decorrência da chuva:

 

Tabela 6 – Composição sem aplicação de improdutividades

 

• CPU Escavação de 1ª categoria – Com incidência de improdutividade em
decorrência da chuva:

Como demonstrado nas composições analisadas, a aplicação do percentual de improdutividade decorrente das chuvas resultou em um incremento de aproximadamente 12,70% nos valores da composição. Trata-se de um impacto significativo especialmente porque, quando aplicado para todas as composições de uma obra, projeta um aumento substancial no custo final do empreendimento.

Além do impacto direto nos custos unitários dos serviços, a redução da produtividade também interfere diretamente no cronograma de execução da obra. Quando as equipes produzem menos do que o previsto em função das interrupções causadas pelas chuvas, torna-se necessário um período maior para a conclusão das atividades planejadas. Esse efeito provoca o prolongamento do cronograma físico da obra,
impactando o planejamento inicialmente estabelecido.

Para melhor compreensão do impacto prático da improdutividade causada pelas chuvas, pode-se apresentar um exemplo hipotético aplicado ao serviço de escavação de material de 1ª categoria. Considerando que a produtividade da CPU considerada, em condições ideais e sem interferência climática, seja de 150 m³/h, e uma jornada diária de 8,8 horas, tem-se uma produção diária estimada de:

𝑃𝑟𝑜𝑑𝑢çã𝑜 𝑑𝑖á𝑟𝑖𝑎 = 150 × 8,8 = 1320 𝑚³/𝑑𝑖𝑎

Entretanto, ao considerar o percentual médio de improdutividade obtido a partir da análise pluviométrica, equivalente a 12,70%, a produção efetiva tende a ser reduzida. Nesse caso, a produção real diária passa a ser:

𝑃𝑟𝑜𝑑𝑢çã𝑜 𝑒𝑓𝑒𝑡𝑖𝑣𝑎 = 1320 × (1 − 0,127)= 1152 𝑚3/𝑑𝑖𝑎

Esse exemplo demonstra que, mesmo em períodos classificados como menos chuvosos, nos quais foi identificado o percentual médio de improdutividade utilizado neste estudo, já se observa uma redução significativa na produção diária do serviço.

Cabe destacar que essa improdutividade de 12,70% foi calculada considerando períodos do ano com menor incidência de chuvas. Em meses historicamente mais chuvosos, como janeiro, a análise dos dados pluviométricos indicou que a improdutividade pode atingir 48,39%, conforme apresentado na Tabela 4.
Nessa situação mais crítica, a produção diária efetiva seria reduzida de forma ainda mais expressiva:

𝑃𝑟𝑜𝑑𝑢çã𝑜 𝑒𝑓𝑒𝑡𝑖𝑣𝑎 = 1320 × (1 − 0,4839)= 681 𝑚3/𝑑𝑖𝑎

Dessa forma, para executar o mesmo volume de 1320 m³, que originalmente seria concluído em um único dia de trabalho em condições ideais, seriam necessários aproximadamente:

𝐷𝑖𝑎𝑠 𝑛𝑒𝑐𝑒𝑠𝑠á𝑟𝑖𝑜𝑠 = 1320 / 681= 1,94 𝑑𝑖𝑎𝑠

Ou seja, quase dois dias de trabalho para executar o mesmo volume inicialmente previsto para apenas um dia. Esse resultado evidencia, de forma clara, como períodos de elevada precipitação podem comprometer significativamente a produtividade das frentes de serviço, impactando diretamente o cronograma da obra e, consequentemente, ampliando os custos indiretos associados à permanência do canteiro, equipes e equipamentos por um período maior do que o inicialmente planejado.
O alongamento do prazo de execução, por sua vez, gera reflexos diretos sobre os custos indiretos do empreendimento. Isso ocorre porque despesas relacionadas à administração local, manutenção do canteiro de obras, mobilização e permanência de equipamentos, segurança patrimonial, consumo de energia, serviços de apoio e estrutura administrativa permanecem ativas por um período maior do que o inicialmente previsto no planejamento. Nesse contexto, a correta consideração da improdutividade causada pelas chuvas durante a fase de planejamento e orçamentação torna-se fundamental, pois permite que esse fator seja incorporado de forma técnica ao ajuste do BDI, à previsão contratual de prazos e custos, e às estratégias de mitigação de riscos do empreendimento. Além disso, a análise prévia dos impactos climáticos contribui para uma tomada de decisão mais assertiva por parte dos gestores e contratantes, aumentando a previsibilidade financeira do projeto e reduzindo a probabilidade de desequilíbrios econômicos ao longo da execução da obra.
Assim, a consideração dos efeitos das chuvas durante a fase de planejamento e orçamento torna-se fundamental para garantir maior precisão na estimativa de custos e prazos. A incorporação do índice de praticabilidade às composições e ao cronograma permite aproximar o planejamento das condições reais de execução da obra, reduzindo riscos, evitando subestimações de custo e contribuindo para maior previsibilidade financeira do empreendimento.
Dessa forma, a metodologia apresentada demonstra que a análise de dados pluviométricos pode ser utilizada como uma ferramenta técnica relevante para o planejamento de obras, permitindo transformar um fator climático frequentemente tratado como imprevisível em um parâmetro mensurável e incorporável ao processo de orçamentação e gestão de projetos.

 

CONCLUSÃO
O presente trabalho teve como objetivo analisar o impacto das improdutividades decorrentes das chuvas no custo e no prazo de execução das obras, demonstrando de que forma os índices pluviométricos podem ser incorporados ao planejamento e ao orçamento como fator técnico de ajuste. A partir do desenvolvimento apresentado, verificou-se que o objetivo proposto foi alcançado, uma vez que foi possível evidenciar, de forma conceitual e quantitativa, a relação entre precipitação, redução da produtividade das frentes de serviço, aumento dos custos diretos e possíveis reflexos no prazo de execução das atividades.
Por meio da análise de séries históricas de dados pluviométricos e da aplicação do critério de avaliação de dias impraticáveis, foi possível determinar o percentual de praticabilidade dos serviços, denominado Praticabilidade Geral (PRG). A partir desse indicador, obteve-se o índice de improdutividade associado às chuvas, que foi posteriormente incorporado às composições de custo unitário, permitindo avaliar de maneira objetiva o impacto dessa variável climática na formação de preços das obras.
A aplicação prática da metodologia, por meio de uma composição de custo representativa do serviço de escavação de material de 1ª categoria, demonstrou que a incidência de chuvas pode gerar acréscimos relevantes nos custos diretos, em razão da necessidade de aumento de recursos para compensar a redução de produtividade. O exemplo prático apresentado evidenciou que uma frente de serviço com produtividade teórica de 150 m³/h, capaz de executar aproximadamente 1320 m³ por dia em condições ideais, teria sua produção reduzida para cerca de 1152 m³/dia ao considerar uma improdutividade média de 12,70%, mesmo em períodos classificados como menos chuvosos.
Adicionalmente, observou-se que em meses com maior intensidade de precipitação, como janeiro, a improdutividade pode alcançar valores significativamente superiores, chegando a 48,39%. Nessas condições, a produção diária do mesmo serviço poderia ser reduzida para aproximadamente 681 m³/dia, o que, em termos práticos, implicaria quase o dobro do tempo necessário para executar o mesmo volume inicialmente previsto. Esse cenário evidencia que a influência das chuvas não impacta apenas os custos diretos das composições, mas também interfere diretamente no cronograma da obra.
A redução da produtividade das equipes e equipamentos tende a prolongar o prazo de execução das atividades, o que consequentemente pode resultar no aumento dos custos indiretos do empreendimento, uma vez que despesas relacionadas à administração local, manutenção do canteiro, mobilização de equipamentos e estrutura de apoio permanecem ativas por um período maior do que o inicialmente planejado.
Dessa forma, conclui-se que a chuva não deve ser tratada como um evento excepcional ou imprevisível no planejamento das obras, mas sim como uma variável mensurável, que pode ser analisada a partir de dados históricos e incorporada de maneira técnica aos processos de orçamento e planejamento. A consideração desse fator ainda na fase de estudo e formação de preços contribui para a elaboração de orçamentos mais realistas, reduzindo riscos de subestimação de custos e aumentando a confiabilidade das estimativas de prazo e investimento.
Por fim, destaca-se que a incorporação de dados climáticos à Engenharia de Custos representa uma importante ferramenta para aprimorar a qualidade do planejamento de obras, permitindo que empresas e profissionais do setor adotem decisões mais embasadas e alinhadas às condições reais de execução dos empreendimentos.

 

REFERÊNCIAS

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AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO (ANA). Hidroweb: Sistema de Informações Hidrológicas – séries históricas. Disponível em: https://www.snirh.gov.br/hidroweb/serieshistoricas. Acesso em: 15 mar. 2026.

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Ana Marina Aguilera Gomes, 2025
amaguileragomes@gmail.com

Gabriel Alves Santos, 2025
gabrielalves.santos03@gmail.com

Gustavo Braga Barreto, 2025
gustavo.braga8@gmail.com

Co-autoria Carolina dos Santos de Oliveira
574385@sga.pucminas.br

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